Clichês da Psicanálise 3 encontro – Tempo lógico

Clichês da Psicanálise 3 encontro – Tempo lógico

Clichês da Psicanálise

3 encontro – Tempo lógico

 

Abertura: Cristina Duba

Boa noite, hoje, seguindo a nossa série Os clichês da psicanálise, continuaremos a perseguir os aforismos, os ensinamentos que ficam encobertos sob os clichês da psicanálise tal como se propagam, se divulgam comumente. Vamos tratar do tempo em psicanálise. A rigor, podemos resumir, em duas palavras, o tempo em Freud como o tempo do a posteriori, da ressignificação e também como o tempo da repetição, do que não muda, do pulsional. Em Lacan, podemos ressaltar a importância do manejo do tempo nas sessões, prática que encontra rastro no apólogo dos três prisioneiros, que realçam o ato na precipitação da “certeza antecipada”. Hoje vamos ter o prazer de ouvir Romildo do Rego Barros, AME e membro da EBP/AMP, associado do ICP, a quem passo a palavra.

Apresentação: Romildo do Rêgo Barros

 

O tempo na análise*

O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.”[1]

  • Não se trata de conceituar o tempo, tarefa difícil que não cabe à psicanálise, mas de verificar como se opera com o tempo na prática analítica. E considerar o tempo como um dos operadores da prática.
  • Com a invenção da psicanálise, já não bastava encarar o tempo como fluxo, ou como uma sucessão de coisas e fatos. Há uma subversão do tempo como condição da prática analítica. O tempo se tornou maleável. Desdobrável, como dizia Adélia Prado das mulheres. Tornou-se um objeto topológico;
  • O tempo de Freud: o a posteriori (Nachtraglich: o futuro engendra o passado). O que significa a frase de Freud “o inconsciente é atemporal”?;
  • O tempo de Lacan, que costuma ser chamado de “tempo lógico” (o ato se dá como precipitação, e não como sequência).

É importante não só apontar quais são as diferenças entre os dois, mas também tentar ver em que o tempo de Lacan necessitava da invenção de Freud, que tornou o tempo relativo. Uma pergunta decorre: em que a proposta freudiana sobre o tempo precede o corte que fez Lacan, não só na concepção como também no uso do tempo?

Duas dimensões temporais em Lacan: a duração da sessão e a duração de uma análise. Quanto à duração da sessão, Lacan comentou em uma entrevista de 1966 que vivem falando do uso que ele fazia do tempo na prática analítica, quando seria mais normal se perguntarem por que se usa o tempo fixo, que é muito menos natural. A duração de uma análise, por sua vez, corresponde em Lacan à formação de um psicanalista, que constitui o término natural de uma análise.

 

Comentários: Cristina Duba

Agradeço imensamente as palavras de Romildo, que situou com tanta clareza e ao mesmo tempo densidade, a questão do tempo em Freud e em Lacan. Gostaria de colocar a questão que me ficou quanto à subversão do tempo como flecha, fluxo, que Freud promove e que, de certa maneira, é condição para a psicanálise, quando o futuro passa a constituir o passado, o que “terá sido”, como Romildo destacou. Podermos presumir que é uma tese que se pode, de certa maneira, supor como incluída no manejo que Lacan introduzirá através das ditas sessões curtas e do corte na sessão, numa “erótica do tempo”? Pergunto se os textos de 1915, sobre a transitoriedade e reflexões sobre os tempos de guerra e morte, não consagram, paralelamente às torções da “flecha” do tempo – na constituição do trauma (caso Ema) e do passado por uma significação futura (Homem dos Lobos), como Romildo nos demonstrou – a importância dessa presença inexorável da morte que se enlaça com a vida, tal como nos diz Freud. Uma presença pulsional, que podemos supor marca o ato, ao retirar sua certeza da angústia, como demonstra Lacan. Enfim, pergunto se poderíamos introduzir nessa consideração sobre o tempo na psicanálise o que fica dessas marcas da perda, castração, luto e desejo que Freud aponta.

* Aula no ICP, 24/9/2020.

[1] Santo Agostinho, Confissões.

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