O ICP

A cada ano que reiniciamos o trabalho no Instituto, elaborando o programa de cursos que serão oferecidos, retomamos a discussão sobre o ensino da psicanálise.

Lacan, no seu texto “A psicanálise e seu ensino”, deixa uma ambiguidade, que é muito profícua e que nos orienta: a psicanálise ensina ou é ensinada? No Instituto essa pergunta nos faz trabalhar ao modo de uma báscula. Ela ensina, porque é como analisante que os analistas da Escola assumem seus cursos, e é ensinada na medida em que cada um que recebe os conceitos ensinados só poderá apreendê-los se der algo de si. Nessa formulação há um desordenamento no modo tradicional de ensino, separando-o da pedagogia.

Jacques-Alain Miller, em seu curso Sutilezas analíticas, diz que o analista não deve encontrar na dimensão terapêutica uma justificativa para o exercício profissional. Se isso é visado, o impasse logo aparece. Para a psicanálise de orientação lacaniana nunca estamos em harmonia com nossa natureza – nesse sentido, não há cura. Essa falha, esse tropeço da estrutura, será a resposta de cada um com o sintoma. Estamos sempre isolados daquilo que consideramos nosso complemento. Essa experiência é o percurso de uma análise, mas, de certa maneira, está presente no ensino e na transmissão. Como vai se dar, para cada um, o retorno desse desajuste sobre o saber? Não temos um consenso, uma visada final, a questão é como cada um irá recolher a defasagem entre o conforto da compreensão, que desfaz a harmonia e como poderá retomar esse efeito em outro momento. Portanto, quem ensina é efeito do ensino, e quem aprende também.

O desejo de saber é singular, não tem um padrão standard que possa servir de medida. Um ensino vivo, em que esses aspetos estão enodados como motor do trabalho, é nossa aposta, sempre renovada no Instituto. Os analistas da Escola sustentam essa experiência de transmissão no Instituto, dando provas de como cada um se arranjou com esse ponto sintomático, irredutível ao universal. Que o Instituto seja um lugar onde cada um possa extrair as melhores consequências em relação ao ensino de Freud e de Lacan, que sirva como referência operatória na clínica que cada um sustenta, é o nosso desejo.

O ano passado foi agudamente difícil para todos em virtude das contingências por que passamos, e, apesar de ainda estarmos online, vamos fazer todo o possível para que este ano seja mais leve. Digo isso porque adquirimos algum savoir-faire e, mesmo sabendo que nada pode substituir a presença dos corpos na convivência amistosa, estamos mais seguros em relação ao que é possível. Seguimos, sem desanimar, aceitando as restrições deste momento, apesar da grave crise que atravessamos em nosso país.Faço votos aos que chegam agora, e aos que já estão engajados, que a escolha pelo Instituto tenha sido a melhor e que produza muitos bons frutos na vida e na análise de cada um.
Espero vocês na aula inaugural deste semestre, no dia 24 de fevereiro.

Sejam muito bem-vindos!

Paula Borsoi
Diretora Geral do ICP-RJ
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