APRESENTAÇÃO

O ENSINO DO ICP-RJ EM 2021

O ensino no Instituto de Clínica Psicanalítica (ICP-RJ) se articula em três dimensões: clínica, epistêmica e política, as quais, a meu ver, enodam-se por meio do quarto elo, o nome próprio “ICP-RJ”, que o distingue de outros institutos. Esse ensino convida cada um dos participantes a um modo singular de enlaçamento, de acordo com sua potência desejante e com os recursos disponibilizados pelo ICP (cursos, núcleos de pesquisa, Jornadas) e pela EBP (cartéis, seminários, encontros e congressos), e possibilita uma transferência de trabalho entre os participantes. Esse modo de enlaçamento pode se presentificar na transferência de trabalho endereçada a  analistas membros da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP), professores dos cursos, coordenadores dos núcleos de pesquisa e demais participantes.

Ensino e transmissão, embora ligados, não se recobrem. O ensino é proposto nos encontros e atividades do ICP, para alunos, professores e demais participantes, ao passo que a transmissão requer um trabalho por parte de cada um com isso que é ensinado, como revela o testemunho de Freud (1914/1980), a propósito dos ditos de seus mestres: “eles me transmitiram um conhecimento que, rigorosamente falando, eles próprios não possuíam” – paradoxo ao qual respondeu inventando a psicanálise.

Lacan (1972/2001) escreve em “O aturdito”: “Que se diga fica esquecido por trás do que se diz em o que se escuta”, o que re-vela as hiâncias entre o dito/dizer e o que se escuta. Enfatiza que esse “que se diga” é necessário, pois, para poder haver um dito, é necessário que esse dito se diga. Stella Jimenez, em Os dois dizeres do Aturdito (não publicado) lê esse “que se diga” na experiência de análise: “Seria o dizer do analisante que permite os ditos da associação livre, que ex-siste a esses ditos e os possibilita”.

Como favorecer que o dizer do ensinante, aluno ou professor, possa se re-velar na experiência de ensino e transmissão da psicanálise no ICP?

Neste semestre, a articulação entre amor de transferência e interpretação é o fio que enlaça nossas atividades. Esses temas foram escolhidos não apenas por constituírem estratégia e tática – que só se efetivam com a política, na direção do tratamento, como nos transmite Lacan (1958/1998) –, mas também porque possibilitam interrogar o fazer do analista à luz do real de cada ser falante. A clínica de nossa época convoca o analista a lidar com os discursos que circulam na pólis, ou de pertencimento a comunidades de gozo, ou de novas formas de parcerias amorosas, que podem revelar modalidades de gozo cujo arranjo sintomático que enoda o corpo pode ou não suportar.

Que possibilidades para a transferência quando há uma negação do inconsciente promovida pelo discurso da ciência atrelado ao do capitalismo? Como manejar a transferência, sobretudo a negativa, nos atendimentos online, durante a pandemia? Como manejar a transferência quando a presença do analista não inclui seu corpo, como ocorre na sessão online?

A cada ano, o ICP-RJ acolhe demandas de profissionais com trajetórias diversas de formação e de experiência, que buscam conhecer e articular noções de psicanálise de orientação lacaniana. Como resposta, o ICP seleciona, dentre os inscritos, alunos para o Ciclo Fundamental que, durante três anos, entrarão em contato com o legado epistêmico de Freud e Lacan, em abordagem não linear, mediada pela orientação de Miller, Laurent e outros analistas do Campo Freudiano, em uma perspectiva de formação singular e permanente. Outra possibilidade se realiza no curso “Lições Introdutórias em Psicanálise”, em oito aulas, com tópicos fundamentais. Em ambos, a proposta é realizar uma articulação que ultrapasse a cronologia dos textos e possibilite extrair o novo, em conjunção ou disjunção com outros textos. Como, por exemplo, fazer conversar um artigo de Freud sobre a transferência com um artigo de Miller (1999/2018, p. 221), no qual afirma que a noção de “inconsciente é fundamentalmente e sempre a advir”?

Um bom encontro ocorreu entre a escolha da articulação entre amor de transferência e interpretação, que enlaça nossas atividades, e o tema do X ENAPOL: o novo no amor, cujos argumentos preciosos reverberam a proposta do ICP neste semestre.

Desejo um excelente trabalho a cada um dos participantes, alunos, professores, coordenadores de núcleos de pesquisa, secretaria. Que cada um de nós possa recolher algo inédito nesta experiência de ensino e transmissão no ICP, uma aposta que se relança a cada vez!

Doris Rangel Diogo
Coordenação da Comissão de Ensino
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