“O ‘perder-se um pouco’ tem todo o seu valor”

“O ‘perder-se um pouco’ tem todo o seu valor”

“O ‘perder-se um pouco’ tem todo o seu valor” – J.A.Miller (pg1).

Abrir com essa frase fala um pouco do momento da turma. Houve um perder-se nos conceitos de um Freud que supúnhamos conhecer, na tentativa de relê-lo com Lacan.

O desafio que nos foi colocado, seguindo a proposta de Miller em seu “Seminário sobre os caminhos da formação dos sintomas”, consistia em separar Sinn de Bedeutung em Freud, a fim de compreender um pouco como se formam os sintomas à luz da psicanálise e o que isso significa em termos práticos.

Fomos criando com Marcus André, então, um quadro que ficou mais ou menos assim:

Sinn                                          Bedeutung
Sentido (significação)              referência
Sentidos em geral                     Vida sexual
Experiência (relatos)               Ponto Nodal
Sintoma  (muda/cura)            Fantasia (não muda/não cura)
Interpretação                            Construção
                                               F
Entrada                                      Saída
Cura/terapia                             Atravessa/análise
S                                               a
Fala                                            Silêncio

Seguindo essa arrumação as dúvidas mais freqüentes giraram em torno de 3 temas que estão no quadro ao lado da Bedeutung. Como entender essa matriz que engloba o trauma, a fixação e a fantasia? E como esses 3 se correlacionam na teoria e na passagem de Freud à Leitura lacaniana do mesmo?

No caminho dessa arrumação houve algum perder-se, no sentido em que Miller nos aponta acima. Chegamos, por exemplo, à inversão do titulo do 1o texto lido, concluindo que melhor nos seria supor que existe ‘os sentidos do sintoma’ de acordo com esse novo paradigma, do que “O sentido dos sintomas” como intitulou Freud – e isso de acordo com o próprio Freud, o que soa muito estranho… Ficamos muito tempo às voltas com a fixação e com o trauma – seguindo a conferência sobre “Os caminhos da formação dos sintomas” e o Caso Dora, nas aulas do Marcus e da Rosário.

Percebemos uma quebra de paradigma que há na passagem de Freud a Lacan, quando concluímos no decorrer dessas aulas que, com Lacan, o que chamamos de sujeito está precisamente ao lado do que investigamos como sintoma em Freud.

Isso nos fez indagar sobre o caminho de formação dos sintomas, um caminho no qual, partindo dos sintomas, daquilo do que se queixa o sujeito, chega-se ao que Freud chamou de vida sexual ou ponto nodal, e que Miller nos traz como fantasia ou fantasma originário, como sugere.

Mas o que é e como se chega a essa fantasia?

Freud aponta que nesse caminho o que se movimenta é a libido, que em momentos de desprazer, regride a estádios anteriores, e que se há algo que atrai a libido, é porque ali encontramos um ponto de fixação. Seguindo o desenrolar das aulas, entendemos que essa fixação se correlaciona com o trauma, aquilo que marca o sujeito, e que para Freud tem o caráter de uma vivência anterior, uma cena (cena primária). Assim sendo, devemos considerar a hipótese de que o sentido sexual, ao qual Freud se refere, reside em uma ‘experiência anterior’; para tal devemos abolir a ideia do mais profundo do inconsciente, e perceber o impacto cultural sobre a estruturação da vida (‘que é mal feita’).

Duas questões saíram, então, daí. A primeira delas relativa à noção de apoio em Freud: como encaixar? E o bebê não nasce com a necessidade de mamar? A segunda foi a questão do quão para trás se pode ir? Há um ponto nodal, chamado de vida sexual (um miolo de cebola), que é algo de inacessível no sujeito, algo do qual não se sabe dizer, ou ainda não se consegue dizer muito: um embaraço.

Diante da assertiva freudiana: “As fantasias possuem realidade psíquica, em contraste com a realidade material, e gradualmente aprendemos a entender que no mundo das neuroses, a realidade psíquica é a realidade decisiva”1. Entendemos que, de alguma forma, esse embaraço se correlaciona com o trauma. Mas como? Então as vivências infantis traumáticas – cena do coito dos pais, sedução por um adulto, ameaça de castração – como se correlacionam diante de tal perspectiva com a constituição do sujeito? Como fazer a passagem para a releitura lacaniana? O que nos diz Lacan?

“Lacan trata da questão da relação da palavra com a realidade ou com o real através de diversas formulações. É o tema tratado por Freud (…), se a palavra corresponde ou não à realidade, isto é, se o que se refere ao aspecto semântico da palavra, os efeitos de significado, podem organizar-se independente da referencia à realidade” (pg 23).

Maria do Rosário, em uma de suas aulas, nos falou do ‘encontro faltoso’, de um real da repetição que nos levou à pergunta: chega-se enfim ao trauma? Ao fantasma originário?

Em “Duas Dimensões clínicas: sintoma e fantasia”, Miller diz em relação à fantasia que aí se trata de “ir ver o que está por trás”, e continua ele “Coisa difícil – dizendo rapidamente – por trás não há nada. Entretanto, é um nada que pode assumir vários rostos, e na travessia da fantasia se trata de dar uma volta pelos lados desses nadas.” (pg 97)

 


1 Citação retirada da Conferência XXIII (1917): “Os Caminhos da Formação dos Sintomas”, p. 430 (grifos nossos)
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