Breve comentário sobre o texto “Seminário sobre os caminhos da formação dos sintomas”, de Jacques-­‐Alain Miller.

Breve comentário sobre o texto “Seminário sobre os caminhos da formação dos sintomas”, de Jacques-­‐Alain Miller.

Logo no início do texto, Miller nos adverte: “para estar bem orientado em um tema analítico   é   preciso   também   desorientar-­‐se,   quer   dizer,   não   pensar   no   tema   de   forma demasiadamente  familiar.  O  “perder-­‐se  um  pouco”  tem  todo  seu  valor”.  Inspirada  por  esta frase, exponho minhas questões acerca da articulação entre os  conceitos  de  sintoma  e  Sinthoma.

Com a leitura que Miller faz das conferencias de Freud, uma primeira precisão é feita entre o sentido do sintoma e o elemento referente ao sintoma, ao que ele está referido e que não necessariamente se coloca como algo que pode ser semanticamente interpretado. Por um lado, Freud nos expõe claramente os sintomas como formações do inconsciente e assim como os sonhos e atos falhos, são munidos de sentido, portanto, podem e devem ser interpretados. Eles estão conectados as vivências subjetivas dos que deles padecem. São soluções de compromisso, para o conflito entre as exigências pulsionais e os vetos inerentes ao encontro com a realidade. Por outro lado, na leitura da conferencia XXIII de Freud, podemos pensar na “referência do sintoma” como um ancoradouro diferente do sentido semântico.

O sintoma está referido e ancorado na fantasia, porém, há um real em jogo no sintoma, um gozo sem sentido, mas ao mesmo tempo incluído no fantasma. A fantasia vela o real do sintoma. A partir da leitura Lacaniana, vimos que sentido e gozo que no inicio de sua obra eram conceitos conflitantes entre si, no ultimo ensino, quando inclui a topologia dos nós, tornam-­‐se articuláveis. Segundo Miller, com os nós, denominados por ele neste texto como “o quinto movimento da teoria Lacaniana”, saímos do campo dos conflitos para pensarmos mais em termos de enodamentos ou articulações. Não se trataria de resolver o conflito, mas de obter um novo arranjo, um funcionamento menos custoso para o sujeito. Penso também, que aqui não há conflito entre externo e interno (realidade e pulsão) já que estas duas dimensões se unem numa única superfície. Não há realidade fora da fantasia, o que há é real na fantasia, ou seja; a fantasia inclui algo que não consente com o sentido. A questão consistiria então em como se articulam fantasia e real, ou sentido e gozo.

A letra incluída por Lacan na palavra sintoma, que nos remete a uma grafia antiga, aponta para esta articulação possível. Uma letra a mais que não nos impede de ler a palavra, mas não deixa passar despercebido que há uma mudança aí. Portanto, se como diz Freud, a fantasia funciona como uma “reserva natural apartada do principio de realidade”, há também na fantasia uma reserva de real. Um encrave, território êxtimo que simultaneamente sustenta e é velado pelo manto do fantasma, mas não se confunde com suas bordas.

“Extrair do fantasma seu real” é assim que Miller formula a direção do tratamento, nisso consistiria a travessia da fantasia.  Parece-­‐me que é justamente este encrave de real que se sustenta no Sinthoma, um resto que não se dirige ao Outro do sentido e não requer interpretação, mas se enlaça num modo de gozo sempre singular.

Ana Tereza de Faria Groisman
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