Nota da Diretoria

O ICP

A pergunta sobre como enlaçar a clínica, a episteme e a política, desde o início do trabalho dessa diretoria no ICP, se mantém pulsante e norteia as ações propostas a cada semestre. Produz trabalho e convoca a todos que se aproximam do ICP a promover essa articulação. Talvez esse seja o agalma do ICP: a diversidade de atividades propostas, visando fazer o nó entre a clínica, a episteme e a política, associada a sua vocação para a pesquisa clínica. A pesquisa clínica é o quarto elemento que amarra e possibilita que a multiplicidade não caia na dispersão.

A dimensão de pesquisa está presente nos cursos, no trabalho dos núcleos e nas primeiras lições, ou seja, em todas as atividades do Instituto. O trabalho é intenso, e caminha com um lastro favorável de participação e engajamento. Essa constatação me autoriza a dizer que o Instituto funciona. Como qualquer funcionamento, ele é instável, e é bom que assim seja, pois induz a que, a cada ano, precisemos renovar a fórmula. A rotina nos serve como uma organização simples, mas trabalhosa, que vai desde a chegada de novos alunos até a programação de cada semestre, detalhada e comprometida, muito própria a um curso que funciona junto e é sustentado por uma Escola de analistas. É preciso estar atento o suficiente para que o funcionamento não se acomode, não se restrinja.

O trabalho epistêmico realizado no ICP se diferencia pela sua complexidade e pela sua diversidade, que dão destaque a um modo de abordar os desafios da clínica psicanalítica, atualizando e verificando a pertinência da utilização das ferramentas que Freud e Lacan nos deixaram. Nossa orientação vai no sentido de preservar o modo como cada professor foi tocado pelo ensino da psicanálise e por sua própria análise, o que vai se revelar no modo como ele transmite os conceitos psicanalíticos. O mesmo se dá em relação aos alunos, que estão em momentos muito singulares de seu percurso e são incentivados a utilizarem o seu modo próprio de lidar com o saber. É importante destacar que o saber que se transmite é sempre parcial, limitado e incompleto, pois não existe uma fórmula para apreender o real em jogo na clínica. Não temos a pretensão, no ICP, de promover um ensino linear e consistente. Mesmo que em alguns momentos isso aconteça, por conta de uma ressonância especial, este não é o nosso objetivo.

Essa abordagem requer um esforço de atualização e de reinvenção constante. Os conceitos teóricos utilizados não têm como dar acesso direto ao saber-fazer na clínica. Os conceitos servem para não nos perdermos no caminho e, mesmo que sejam nosso mapa aproximado, impreciso, ele não poderá deixar de ser consultado. Com muita frequência, temos ainda que apostar na contingência do que ressoa entre o dito e o dizer.

Os enormes desafios que a psicanálise enfrenta, atualmente, para se manter viva exigem uma revisão constante. Neste sentido o corpo e a linguagem são duas dimensões clínicas do nosso tempo, que se apresentam de múltiplas formas e portam um grande mal-estar, manifestado na clínica como fenômenos disruptivos da significação. O reordenamento da clínica atual, portanto, se dá por estes dois fios cruciais que nos ajudam a prosseguir na investigação clínica.¹

Para finalizar uma notícia sobre a Clínica do ICP: Ela será implantada este ano de 2019, sob a coordenação de Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros e de uma comissão que será composta junto aos coordenadores dos núcleos de pesquisa. A possibilidade de participação, em breve, será ampliada para os associados do ICP e para os membros da Escola que tiverem interesse. A oferta de uma clínica do ICP deseja transmitir o lugar que a psicanálise lacaniana dá ao sintoma e à função que ela extrai da angústia. A proposta dessa clínica não se confunde com uma clínica social e, tampouco, com um SPA universitário, na medida em que ela não está apoiada num lugar de prática para alunos, mas sim na ampliação de um campo de investigação clínica para analistas praticantes que tem sua formação ligada à Escola Brasileira de Psicanálise. Os alunos poderão se engajar na pesquisa a partir de sua trajetória nos cursos e nos núcleos. “O que pode o ICP em torno da pesquisa clínica em psicanálise?” é a pergunta do momento. Essa clínica pretende, justamente, através de uma oferta de acolhimento, desenvolver uma pesquisa teórico-clínica, ampliando os laços com outros profissionais e instituições que funcionam em nossa Cidade.

Sejam muito bem-vindos ao Instituto!

Um ótimo ano de trabalho para todos nós!

Paula Borsoi
Diretora Geral do ICP-RJ

¹ – BASSOLS, M. “Abertura”. In: Scilicet: o corpo falante. Belo Horizonte. EBP. P8