TEXTO DOS COMENTÁRIOS DO TEMA – DA TURMA 2013 PARA O COLÓQUIO DA COMISSÃO DE ENSINO

TEXTO DOS COMENTÁRIOS DO TEMA – DA TURMA 2013 PARA O COLÓQUIO DA COMISSÃO DE ENSINO

Em nosso encontro, o texto Seminário sobre os caminhos da formação dos sintomas de Miller, foi trabalhado até onde é citada a segunda operação lacaniana, página 14. Trecho que trabalhamos neste último semestre, o qual se refere ao grafo do desejo.

Nesta parte do texto, que é a primeira, Miller apresenta partes da obra de Freud que se relacionam com o tema-título. Cita o caminho que Freud percorreu em seu segundo ciclo de conferências, o qual foi seguido por Lacan na formação do seu ensino, que vai do sentido à satisfação, ao gozo do sintoma, que “concentra a temática central de seu ensino”.

O binário ordenado e vetorizado:

SENTIDO → GOZO

SINTOMA → FANTASIA

Neste momento da leitura levantou-se a questão de como o sintoma pode se apoiar na fantasia, é algo que vai ser construído na análise? No surgimento do sintoma já existe a figura do Outro, mas não temos ainda a fantasia. O sintoma leva o sujeito para a análise e a fantasia é construída em análise justamente para revestir, encobrir o sintoma, dar sentido à ele. Tanto têm sintoma na fantasia quanto têm fantasia no sintoma. Extrai-se da fantasia o real. Então podemos pensar que após a travessia da fantasia, em que encontra seu ponto de real, isso que é extraído como resto é que se transforma no sinthoma do final da análise.

Ainda é preciso levar em conta o tempo lógico, que é o tempo do inconsciente, por isso que em análise o fator cronológico não se sustenta. Não há a inscrição negativa no inconsciente, portanto as coisas somente se somam e por isso, ao invés de separar sintoma e fantasia, é preciso pensá-los juntos, um em articulação com o outro. Encontramos no cerne do sintoma, a fantasia, que apesar de ser construída e elaborada em análise, esteve sempre ali, porém, recalcada.

No texto Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise, Lacan coloca o sintoma como um sentido, um sentido recalcado. Desvela o sentido do inconsciente e o do sintoma na linguagem (função da fala plena e vazia) que é explicado pelo significante. Destaca que o eixo simbólico é determinante dos fenômenos analíticos.

Foi a partir do texto Introdução ao Narcisismo de Freud, que Lacan tira que é no eixo imaginário que a libido freudiana circula, porque é fundamentalmente narcisista, fazendo dele o eixo pulsional. Opondo, assim, o sentido e o gozo, os eixos simbólico e o imaginário. Desembocando no esquema chamado L em que o eixo imaginário interrompe o eixo simbólico. Trazendo para a prática a separação, a divisão do imaginário no simbólico, a primeira operação lacaniana.

Surge aí um exemplo de caso clínico da aluna Heloísa, da quebra entre simbólico e imaginário, ao qual a paciente que era acumuladora, depois de algumas sessões, em sua fantasia, falando sobre a dificuldade que os acumuladores do programa de tv têm em se desfazerem de seus pertences, dizendo ser uma acumuladora também, a analista questiona se ela acumula dor?

A intervenção desse caso clínico visou valorizar o significante em detrimento do significado. A paciente vinha contando histórias de pessoas acumuladoras, sintoma cujo ela também apresentava mas pouco se implicava. Quando a analista intervém no significante acumula-dor como uma questão, a paciente pôde se posicionar de maneira diferente e formular outra coisa em relação a esse sintoma, se direcionando à fantasia na medida em que começou construir suas ficções fantasmáticas (considerando que, se decantadas, se relacionam com a fantasia fundamental do sujeito).

Esse foi o ponto de partida para a nossa elaboração de que a construção em análise representa o descolamento desse lugar sintomático que leva o sujeito a buscar análise para o surgimento da fantasia como uma construção em análise, como a teia que o sujeito vai tecendo em torno do sintoma (acumuladora, acumula dor, S3, S4…), uma vez que a realidade é a realidade psíquica e portanto vemos o mundo pela tela da nossa fantasia, estando ela desde sempre lá, porém recalcada. Por isso o sujeito no ponto de partida da seta no grafo é um sujeito barrado?

Ainda sobre o sentido, Ana Tereza cita outro exemplo de um caso clínico, onde a paciente era chamada pelo pai de “menina pesseguinho”. Qual o sentido deste chamado para ela? Na análise vai conseguindo deslocar o sentido e dar um novo sentido. Abre-se mão de um sentido, até que se chegue em outro e assim por diante, até encontrar o nonsense, o sem sentido. Ana Tereza nos lembrou: o significante (menina pesseguinho) pode ser transmitido, mas o significado não. Nesse caso, é insondável o desejo do pai ao nomear essa filha ou ainda, o significado que ele queria dar a ela quando “apelidou” a filha com esse nome é desconhecido, isso não pôde ser transmitido, por isso cada um se apega a um significante e conecta a ele o sentido e/ou significado que lhe convém. Cabe ao analista quebrar essa cola de um sentido univocidade. O sentido tão procurado para o enigma não vai dar conta do desejo do Outro.

Chega-se na parte da leitura que vai apontar a segunda operação lacaniana, que é o caminho da formação dos sintomas demonstrado no grafo do desejo, no conjunto de caminhos por onde o sintoma percorre. Elaborou-se questões que foram discutidas ao longo do semestre, como: o sintoma surge como um efeito especial do significado do Outro; existe de um lado o gozo na fantasia e por sua vez o sentido que a fantasia dá ao sintoma; o que se revela no alto do grafo é a falta do Outro. Diferente da falta no sujeito que existe desde o primeiro andar.

O desejo é sempre desejo de uma outra coisa, como pulsão é metonímico, por isso nunca é satisfeito totalmente. Em última instância desejo é desejo de ter desejo, uma vez que é uma resposta do sujeito ao enigma que o Outro porta, o que na passagem pelo Édipo encontrará uma representação no falo, primeiro o falo imaginário e depois o falo simbólico (significante da falta – falta um significante que represente o desejo do Outro), que é o ponto de partida para a construção da fantasia neurótica, como por exemplo: ser o falo materno num primeiro momento do processo de alienação e separação.

Tomando emprestado as anotações da aula da Maria Lídia, “a novela familiar é a forma ficcional com que cada sujeito, marcado pelo Édipo, constrói sua rememoração e que, no tratamento se sucede em várias versões, passando por vários significantes, que se sucedem e que, por ser do registro imaginário, vai sendo enxugado, reduzido durante o tratamento analítico, aos elementos simbólicos da fantasia fundamental ($ ◊ a). É essa fantasia fundamental que vem preencher a falta inaugural do sujeito, sendo também lugar de gozo?

Onde Miller escreve: “O fantasma é o resultado de um longo circuito libidinal, no qual aparecem a pulsão como cadeia significante e o desejo como significado dessa cadeia.” O fantasma como circuito libidinal entendemos que é todo o circuito do Grafo do Desejo, certo? Articular a pulsão como cadeia significante nos remete a condição de representação do sujeito, qual seja: o sujeito é representado por um significante para outro significante ao longo de toda cadeia. E se pensarmos que a pulsão também não pode ser dita, apenas há uma representação dela no inconsciente (modulada pela pulsão de vida e pulsão de morte) ela também se relaciona à cadeia, e consequentemente, ao sujeito. Dessa forma chegamos na primeira parte do matema – no sujeito barrado.

A cadeia significante é o própria metonímia desejante e o desejo, tal o sintoma é a significação, a meta que nunca se realiza e que vai encontrando satisfações possíveis ao longo da vida. Esse ” possíveis ” é a castração que dá pleno movimento a vida do sujeito.

Na segunda parte do matema da fantasia, temos o objeto a, que por si só se relaciona com o desejo como causa do mesmo. Miller articula o desejo como signifciado da cadeia significante. E da onde vem o significado? Do Outro. O sujeito recebe do Outro sua mensagem de forma invertida e isso também nos remete ao ponto de falta. O desejo, portanto, é sempre o desejo do Outro, na medida em que reconheço no Outro a minha própria falta e por isso também posso desejar, de acordo com o que foi construído a partir do Che vuoi?

O ponto de basta que Lacan inventa da pulsão e do desejo é o Significante do Outro barrado, S(Ⱥ). Ou seja, a inconsistência do Outro, o ponto de Real, o furo, enfim… podemos discorrer sobre mil coisas nesse ponto.

Já quanto ao sinthoma no final da análise, no texto O outro sem o Outro, Miller nos conta que o grande segredo ou o que permaneceu obscuro para os psicanalistas por muitos anos, com relação ao Seminário 6, é que não existe o Outro do Outro, ou seja, o Outro é sem o nome do pai enquanto representante da lei. O S de A barrado, comporta nesse nível a falta de um significante, a falta do significante do nome do pai que designaria, se fosse encontrado no final da análise, o ser do sujeito remetido à lei que o teria constituído. Contudo não se encontra no final da análise um significante último que daria conta de tudo definitivamente. A partir de então prevalece a metonímia desejante em detrimento à metáfora paterna. O desejo aqui “está em sintonia com a falta, é sem substancia, está, com efeito em sintonia com S de A barrado, com a inexistência de uma metáfora terminal que faria surgir uma significação definitiva”. Mais ainda Lacan passa então, segundo Miller, a dar um lugar de destaque para a fantasia no final da análise. Desejo e fantasia seria o verdadeiro nome do Seminário 6 ao invés de Desejo e interpretação. Nele o desejo não é mais a metonímia da falta a ser. “O cerne deste seminário não é a interpretação, mas a relação do inconsciente do sujeito com o objeto na experiência desejante da fantasia”. Aqui se trata do desejo inconsciente. A fantasia pensada no singular, como fundamental, como uma relação do sujeito com o objeto inteiramente diferente da relação do conhecimento. O objeto é o objeto pequeno a inscrito na fantasia e que escapa à dominação do Nome-do-pai e à metáfora paterna. É o que resta, dai a interpretação deve incidir sobre o objeto a da fantasia, sobre o gozo como proibido e dito nas entrelinhas. Ao seguir o desejo Lacan encontra o gozo. Surge uma questão: então o Sinthoma conteria o encontro ou o dissecamento da fantasia e do desejo?

Daremos aqui, com certa dificuldade, como encerrado este texto onde reunimos um pouco da fala de cada aluno, formando assim um mosaico das ideias que foram explodindo diante desse texto de Miller tão denso.

Next Post Previous Post

Your email address will not be published.