QUESTÕES SOBRE O EIXO TEMÁTICO SINTOMA/SINTHOMA

QUESTÕES SOBRE O EIXO TEMÁTICO SINTOMA/SINTHOMA

A priori, o significante incide na carne como letra de gozo, como acontecimento de corpo. Isso é da ordem de um trauma, já que fora do sentido, não havendo um endereçamento ao Outro da linguagem, que é construído no a posteriori. O que se constitui, de início, é o inconsciente real ou a face real da linguagem, que deflagra a escritura de um modo de gozo. Assim, “O significante é a causa do gozo” (LACAN, 1972-1973/1985, p.36), vivificando o corpo.

O sinthoma ou a nomeação, na hipótese de uma amarração borromeana dos três registros, vem viabilizar a imaginarização do real do simbólico, ou seja, a imaginarização do inconsciente real, que implica na crença no Outro, fazendo emergir os sentidos aos quais o falasser se aliena. O sinthoma, como suplência à inexistência da relação sexual, vem velar o trauma e possibilitar a construção da realidade psíquica na neurose, ou o que na análise aparece como inconsciente transferencial. Já o sinthoma em um fim de análise seria da ordem da invenção de um nome, por parte do falasser, reescrevendo o modo de gozo ao qual se identificou? Tal invenção se viabilizaria a partir de uma redução desta imaginarização do inconsciente real, podendo o falasser prescindir de seu sinthoma (NP)?

De acordo com Miller (1996), o sintoma, para Lacan em seu último ensino, é da ordem do real, sendo uma letra de gozo revestida pelo fantasma, construção viabilizada pelo sinthoma? Se considerarmos o sintoma como um tratamento do real traumático, necessariamente há que haver um sentido, ainda que mentiroso. Mas, em se tratando de um modo de gozo, a análise, partindo da mentira necessária terá que tocar no sem sentido do sintoma, para que, a partir daí que se possa fazer uma reescritura no modo de gozar do sujeito? Neste caso, não há que se decifrar o sintoma como uma mensagem cujo sentido estaria recalcado, mas há que se reduzi-lo ao gozo que o sustenta? Isso levaria à travessia do fantasma? Assim, no início de uma análise o sintoma seria uma elucubração de saber a partir do sinthoma, enquanto que, no fim de uma análise o sinthoma seria uma invenção para o sintoma?

O que aparece no tropeço da fala (enquanto sem sentido) é o inconsciente real? A surpresa e o enigma criados a partir deste tropeço é o que possibilitaria a escritura da letra de gozo, ou a circunscrição do impossível, viabilizando, também, uma redução do sentido?

O que diferencia o sintoma da angústia seria que, enquanto a primeira seria a emergência da letra de gozo sem o tratamento do Outro da linguagem, o segundo, graças à nomeação, viria revestido com uma significação (ou uma mentira)? O motor de uma análise seria, então, a emergência do inconsciente real?

Referências bibliográficas:
LACAN, J. O Seminário, livro 20: mais, ainda (1972-1973). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller; versão brasileira de M. D. Magno. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
MILLER, J. A. Seminário sobre os caminhos da formação dos sintomas. (1996). In: Opção Lacaniana – Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, no 60. (p. 11- 37). São Paulo: Edições Eólia, 2011.

O que para mim foi mais marcante no curso? (Claudio Pfeil / julho 2014)

Um questionamento meu antigo

Partindo-se da ideia fundante de Lacan “o ics estruturado como uma linguagem” → E da ideia de que o Ics só existe no dispositivo analítico (uma vez que é somente nele que é produzido através do discurso)

Questionamento: Se só existe no dispositivo analítico, o que dizer então do ics a nas psicoses? (por extensão, no caso dos artistas, dos psicóticos artistas ? Kusama p. ex) → Estão “fora” do dispositivo analítico → Hipótese: se estão “fora”, deve-se então supor que sejam isentos de Ics? Em outras palavras, é possível estabelecer uma relação Ics-Psicose? (esse é um questionamento antigo meu)

No decorrer do curso

Uma conexão entre duas frases emblemáticas de Lacan acerca da psicose:

“ics a céu aberto na psicose” – “chumbo na rede” → essa conexão serviu como construção de uma “ponte” de entendimento ao questionamento acima, presente de forma difusa/confusa no meu estudo.

Como eu entendo e formulo para mim esta conexão e em que sentido serve de “ponte”? → No caso das psicoses → o Ics se apresenta, está de fato aí, “a céu aberto”, como diz Lacan. O que isso significa? Entendo que, a partir de leitura do Seminário III, isso significa o seguinte: embora o Ics na psicose “esteja aí” – e de fato está – ele se apresenta sob o signo da inércia, isto é, o que emerge para o psicótico é sem relação com nada, não conhece diferenciação, não se conecta a nada, não tem dialética nenhuma, portanto – não acho excessivo dizer – não faz História: é um Ics não historicizado. É o tal, lembrando outra expressão de Lacan, “chumbo na rede” (“plomb dans le filet”). É justamente a dialetização (o que ocorre nas neuroses) que permite com que uma narrativa se instaure, e é a partir dela que o Ics se constrói como linguagem numa análise, possibilitando ao mesmo tempo ao analisando um certo “jogo” com os significantes, jogo este impossível nas psicoses. Naturalmente, esse eixo de compreensão não exaure todas as questões mas permite situar em que contexto afirmo no Diário: “O inconsciente só se abre quando a gente entra em análise. É no diálogo entre analisando e analista que ele é criado. Fora do dispositivo analítico não há inconsciente.” (“Criação do inconsciente”, p.41).

Ana Cristina Moreira
Next Post Previous Post

Your email address will not be published.