Preservar o que não encaixa nas articulações sentido e gozo

Preservar o que não encaixa nas articulações sentido e gozo

Jacques-Alain Miller, em seu texto proposto para nosso Colóquio, promove um encontro de Lacan com Freud, localizando no grafo do desejo as elaborações com as quais se pode pensar um Lacan freudiano e um Freud lacaniano.

É no grafo do desejo que Lacan articula sentido e gozo pela incidência da fantasia na formação do sintoma. Comecei a me perguntar em quê Freud seria lacaniano em suas conferências introdutórias. Ao transmitir sua descoberta do inconsciente, sob a forma do recalcado e sua descoberta da sexualidade infantil, na forma como a criança constitui os objetos dos quais extrai satisfação, com seu potencial de fixação e ponto de atração para a regressão, Freud se depara com uma questão: como se articulam esses dois elementos presentes na formação dos sintomas, o recalque e a regressão, ou seja, as pontes verbais, as conexões que levam à ideia recalcada e os circuitos da pulsão em torno do objeto perdido?

Freud vai então buscar situar o que faz obstáculo à ideia que foi recalcada, como também o que impede de se alcançar a plena satisfação com os objetos cobiçados. O obstáculo, de início colocado na realidade externa, vai ser encontrado como impossibilidade interna. Há algo que impede a plena satisfação e que vai ser experimentado, não quando o objeto é negado, mas quando ele é encontrado, e a satisfação alcançada não vai coincidir com aquela que foi esperada. É a experiência da Versagung, da frustração, que Lacan vai abordar em vários momentos de seu ensino. A experiência da impossibilidade interna ao objeto de oferecer a plena satisfação é a base da constituição da fantasia, que supõe essa satisfação obtida no passado, mantendo o sujeito ligado a essa modalidade suposta de obter satisfação e ao que que teria se estabelecido como obstáculo. Com essas construções Freud deixa circunscrito o lugar de uma hiância, de uma inadequação, que produz um excedente, pois algo não se encaixa entre o sentido encontrado nas conexões recalcadas e o gozo, ou seja, a satisfação no desprazer ao qual o sujeito se mantém fixado. Em um certo sentido, portanto, Freud é lacaniano porque ele faz necessária a invenção de Lacan de seu objeto a, índice de que a hiância, o diferencial não poderá ser anulado, pois é ele mesmo o que move o desejo e o que vai mover as várias elaborações de Lacan ao longo de seu ensino. Entre o circuito pulsional e o circuito semântico não se dá uma justaposição, mas uma articulação graças a presença do diferencial, onde Lacan situa a relação de –y e a, do gozo à castração, que está localizada no andar de cima do grafo. Relação que não é complementar, mas suplementar, o que implica a produção permanente de um excedente, um mais-de-gozar.

Nas operações da alienação/separação o objeto, como mais-de-gozar provoca a separação entre o sujeito e o Outro, articulados pelo significante e pelo sentido. O mais-de-gozar, que produz a separação, é ao mesmo tempo o que fixa o efeito de sentido assumido pelo sujeito.

Nos discursos, em particular no discurso do mestre, o objeto a como mais-de- gozar vai aparecer no lugar do que se produz como resto, evidenciando sua dimensão de excedente. Mas será a quinta operação, de enodar, indicada por J-A Miller, que dará o fundamento de toda perspectiva, diz ele: “nessa zona nem tão articulada, nem tão diferenciada como as outras, trata-se de identificar sentido e gozo”. Embora Lacan oponha, em outros momentos, radicalmente sentido e gozo, aqui ele busca situar o “sentido gozado “ . Seria nesse ponto de identificação de gozo e sentido que o objeto a vai ser introduzido por Lacan como extimidade, o estranho íntimo, que necessitará a cada vez um novo arranjo para lidar com ele. Ou seja, encontrar modalidades singulares de extração do gozo para sustentar o objeto em sua dimensão de extimidade, graças à qual no retorno ao ponto de fixação, poderá se produzir o que Lacan indicou como um reviramento, uma inversão (rebroussement) com efeito de criação, ponto de apoio para o Sinthoma.

Lembremos do caso Dora, que trabalhamos esse ano juntamente com o texto de Lacan “Intervenção sobre a Transferência” com a turma do ICP de 2014.

No caso Dora, na interpretação de seus dois sonhos, no processo dialético de decifração empreendido por Freud através das questões colocadas por ele e das associações de Dora, vão se estabelecendo as conexões, as pontes verbais, que operam sobre o recalque e sobre os sintomas. Esse processo encontra um limite para responder sobre o que quer uma mulher, sobre o mistério da feminilidade. O que surge nesse ponto é o elemento fantasmático, como diz Lacan em seu texto, “os modos permanentes pelos quais o sujeito constitui seus objetos” e que vão aparecer “num momento de estagnação da dialética analítica”, a cena de Dora chupando seu polegar esquerdo, ao mesmo tempo em que puxava com a mão direita o lóbulo da orelha do irmão, que estava sentado quieto ao seu lado.

A cena fantasmática se constituindo, ao mesmo tempo, como janela, enquadre para ler suas experiências na relação com o outro sexo, com o mistério da feminilidade, com sua posição de objeto para um homem e, como tela, que recobre o que aí está em jogo da não relação sexual, da não complementaridade com o objeto, da não complementaridade entre os sexos, o que lhe permitiria viver de outro modo o desencontro inevitável e condescender com uma nova aliança entre desejo e gozo, com uma nova forma de satisfação.

J-A Miller, nesse texto que discutimos aqui, sublinha como no final de seu ensino, Lacan vai dizer que o sintoma é a única coisa verdadeiramente real, que conserva um sentido no real, sendo assim localizável entre angústia e mentira, mais do lado da mentira. Maneira paradoxal de indicar o limite do simbólico com o qual a psicanálise opera. Nesse limite se situa o gozo opaco do sintoma fora de todo sentido e a variedade da verdade para abordá-lo, nas várias maneiras de articular sentido e gozo.

É esse limite também que constitui a psicanálise como um campo de investigação permanente.

Pretendemos, com os colóquios da comissão de ensino e com as conversações clínicas dos núcleos do ICP, contribuir com essa investigação.

Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros
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